Destaque entrevista

MANUEL SAMPAIO DE OLIVEIRA | DIRETOR TÉCNICO DA FARMÁCIA OLIVEIRA «A honestidade e o respeito pelos utentes foram sempre os pilares da Farmácia Oliveira»

Manuel Sampaio de Oliveira é uma referência no setor farmacêutico da região de Braga. Diretor Técnico da Farmácia Oliveira, em Ferreiros, construiu ao longo de 43 anos um percurso marcado pelo empreendedorismo, pela inovação e por uma visão muito própria sobre o papel da farmácia na sociedade. Nesta entrevista, revisita os momentos mais marcantes da sua carreira, reflete sobre a evolução da profissão farmacêutica, fala sobre as novas instalações da marca e partilha a sua perspetiva sobre os desafios e oportunidades que se colocam ao setor.

Como surgiu a sua vocação para a Farmácia e o que o motivou a seguir esta profissão?

Curiosamente, a Farmácia não fazia parte dos meus planos iniciais. Nunca pensei vir a dedicar-me a esta atividade. O meu percurso começou por outras áreas. Trabalhei desde muito jovem e, durante a tropa, estive destacado numa farmácia pertencente ao Laboratório Militar. Embora não desempenhasse funções propriamente farmacêuticas, essa experiência permitiu-me um primeiro contacto com o setor. Mais tarde, frequentei um curso de formação agrícola. Sempre tive uma forte ligação ao mundo rural e à agricultura, influenciado pelas minhas raízes familiares. Cheguei a exercer funções como professor na área agrícola, uma experiência extremamente enriquecedora. Contudo, o momento decisivo surgiu quando a minha esposa, que frequentava o curso de Ciências Farmacêuticas, estudava no Porto. Enquanto a acompanhava diariamente, comecei a assistir informalmente a algumas aulas. Rapidamente percebi que muitos dos conhecimentos científicos me eram familiares graças à formação que já possuía. Foi então que tomei uma decisão que mudou a minha vida. Solicitei a transferência da matrícula que tinha noutra área académica e inscrevi-me em Ciências Farmacêuticas. Completei o curso juntamente com a minha esposa e, curiosamente, terminámos ambos no mesmo dia e com exatamente a mesma classificação final. Ainda durante a licenciatura comecei a estudar a viabilidade da abertura de farmácias em diversos concelhos da região. Quando concluí o curso, tinha já vários projetos pensados e aprovados. Foi assim que nasceu o meu percurso profissional na área farmacêutica.

A Farmácia Oliveira conta já com mais de quatro décadas de história, precisamente 43 anos. Como nasceu este projeto e quais eram os seus objetivos iniciais?

Desde o início, o objetivo foi criar um projeto próprio e construir algo com identidade e valores bem definidos. Naquela época, muitos farmacêuticos optavam por seguir carreiras noutras áreas ou trabalhar por conta de terceiros. Eu e a minha esposa acreditávamos que seria possível desenvolver um projeto independente. Sabíamos que seria um caminho exigente. Quando a farmácia abriu portas, o crescimento foi extremamente gradual. Recordo-me de que, no primeiro dia, tivemos apenas um cliente. No segundo dia, dois. No terceiro, três. E no quarto, quatro. Foi um percurso construído passo a passo, com muito trabalho e persistência. Desde o primeiro momento defini um princípio orientador muito simples: servir bem as pessoas. Sempre acreditei que a honestidade, o rigor e a qualidade do atendimento acabariam por ser reconhecidos pela comunidade. Felizmente, o tempo veio confirmar essa convicção.

«As farmácias são um dos pontos de contacto mais importantes entre os cidadãos e o sistema de saúde»

Quando olha para este percurso de mais de quatro décadas, quais foram os momentos mais marcantes?

Houve vários momentos importantes, mas destaco particularmente a mudança para instalações mais amplas, realizada há alguns anos. A localização anterior tinha limitações significativas, sobretudo ao nível da acessibilidade e do estacionamento. A mudança permitiu melhorar substancialmente as condições de atendimento e acompanhar o crescimento da atividade. Mais recentemente, a transferência para as atuais instalações representou igualmente uma evolução importante. Não se traduziu necessariamente num aumento imediato do movimento, mas trouxe melhores condições para a equipa e para os utentes, permitindo prestar um serviço mais confortável e eficiente.

Quais foram os principais desafios que enfrentou ao longo destes anos?

Ao longo da minha carreira assisti a diferentes períodos de instabilidade económica, mas procurei sempre gerir a farmácia de forma prudente e sustentável. Nunca adotei medidas que penalizassem os colaboradores durante períodos mais difíceis. Pelo contrário, muitas vezes foi precisamente nesses momentos que mais investi. Apostámos cedo na informatização, na modernização tecnológica e na robotização, numa altura em que muitos ainda olhavam para essas soluções com alguma desconfiança. Acredito que investir em inovação é uma forma de preparar o futuro e de melhorar continuamente o serviço prestado aos utentes.

Como caracteriza a evolução da profissão farmacêutica desde o início da sua carreira até aos dias de hoje?

A transformação foi absolutamente extraordinária. Quem inicia hoje a sua atividade profissional dificilmente imagina como era a realidade há quarenta anos. Atualmente existe muito mais conhecimento científico, maior rigor técnico e uma exigência crescente por parte dos próprios utentes, que estão mais informados e participam de forma mais ativa nas decisões relacionadas com a sua saúde. As farmácias evoluíram significativamente em termos de instalações, tecnologia, qualificação dos profissionais e qualidade dos serviços. Hoje, encontramos equipas altamente especializadas e estruturas modernas que prestam um apoio muito mais abrangente à população.

Considera que o papel do farmacêutico é hoje devidamente reconhecido?

Penso que ainda existe margem para uma valorização maior da profissão. O farmacêutico desempenha um papel fundamental na promoção da saúde e no acompanhamento dos doentes, mas deve sempre respeitar os limites das suas competências. O diagnóstico e a prescrição pertencem ao médico e essa distinção deve ser preservada. No entanto, existem muitas situações que poderiam ser resolvidas ou acompanhadas diretamente na farmácia, contribuindo para uma maior eficiência do sistema de saúde. Ao longo dos anos, os farmacêuticos têm assumido novas responsabilidades, mas é importante que essas competências sejam devidamente reconhecidas, incluindo do ponto de vista institucional e económico.

Que importância assumem atualmente as farmácias comunitárias no acompanhamento da população?

As farmácias comunitárias são um elemento fundamental da rede de cuidados de saúde. Muitas vezes somos o primeiro profissional de saúde a quem as pessoas recorrem quando surge um problema. Existe uma relação de proximidade e confiança construída ao longo dos anos. Conhecemos muitos dos nossos utentes há décadas e acompanhamos diferentes gerações da mesma família. Sempre que identificamos situações que ultrapassam as nossas competências, encaminhamos os utentes para os serviços adequados. Esse papel de triagem e orientação é extremamente relevante e contribui para uma utilização mais eficaz dos recursos do Serviço Nacional de Saúde.

Podemos afirmar que as farmácias são hoje uma das principais portas de entrada no sistema de saúde?

Sem dúvida. Diariamente recebemos pessoas que procuram aconselhamento para situações muito diversas. Em muitos casos somos nós que identificamos sinais de alerta e incentivamos os utentes a procurar assistência médica com urgência. A medição da pressão arterial é um exemplo simples, mas muito significativo. Ao longo dos anos, inúmeras situações potencialmente graves foram detetadas nas farmácias, permitindo um encaminhamento atempado para os cuidados médicos adequados. A proximidade e a acessibilidade fazem das farmácias um dos pontos de contacto mais importantes entre os cidadãos e o sistema de saúde.

«As novas instalações proporcionam melhores condições para os utentes e para a equipa»

Em 2025 inauguraram novas instalações. O que motivou esta mudança?

A principal motivação foi a necessidade de adequar o espaço ao volume de atividade que a farmácia passou a ter. As instalações anteriores já não respondiam plenamente às exigências atuais. As novas instalações proporcionam melhores condições para os utentes e para a equipa. Dispõem de áreas mais amplas, maior conforto, melhor organização funcional e estacionamento próprio, fatores que contribuem para uma experiência de atendimento mais eficiente e agradável.

Que serviços diferenciam atualmente a Farmácia Oliveira?

Além da dispensa de medicamentos e do aconselhamento farmacêutico, disponibilizamos diversos serviços complementares, como consultas de nutrição, administração de injetáveis, controlo de peso, monitorização da pressão arterial e frequência cardíaca, e determinação de parâmetros bioquímicos, nomeadamente glicemia, colesterol ou triglicerídeos. O nosso objetivo é oferecer um acompanhamento próximo e responder às necessidades concretas da comunidade.

Como define a equipa da Farmácia Oliveira?

É uma equipa extremamente competente, dedicada e comprometida com a missão da farmácia. Sempre acreditei que o respeito é uma via de dois sentidos. Para sermos respeitados, temos primeiro de respeitar os outros. Essa filosofia tem orientado a gestão da equipa desde o primeiro dia. Temos profissionais com elevados níveis de qualificação académica e uma estabilidade pouco comum no setor. Muitos colaboradores acompanham-nos há décadas, o que demonstra a existência de um ambiente de trabalho positivo, baseado na confiança, na valorização profissional e no espírito de entreajuda.

Que impacto teve a robotização na organização da farmácia?

A robotização trouxe ganhos muito significativos em termos de eficiência, organização e qualidade do serviço. Permite acelerar a preparação dos medicamentos, reduzir tempos de espera e libertar os profissionais para aquilo que é verdadeiramente importante: o contacto com o utente. Além disso, possibilita uma gestão extremamente rigorosa do stock, assegurando elevados níveis de disponibilidade de medicamentos e minimizando ruturas. Trata-se de uma ferramenta essencial para responder às exigências atuais da atividade farmacêutica.

Como encara a crescente presença da Inteligência Artificial na área da saúde?

Vejo a Inteligência Artificial como uma tecnologia com enorme potencial. Ainda estamos numa fase inicial da sua aplicação prática em muitas áreas da saúde, nomeadamente na farmacêutica, mas acredito que terá um papel cada vez mais relevante. Poderá contribuir para melhorar processos, apoiar decisões e aumentar a eficiência operacional. No entanto, considero que continuará a ser indispensável a componente humana, particularmente numa área em que a relação de confiança entre profissional e utente é fundamental.

Quais considera serem os principais desafios do setor farmacêutico?

Um dos maiores desafios é a crescente concorrência das vendas online e dos grandes operadores digitais. As farmácias comunitárias têm estruturas exigentes, equipas altamente qualificadas e responsabilidades que não podem ser comparadas com modelos de negócio exclusivamente digitais. É importante encontrar um equilíbrio que permita preservar a sustentabilidade económica das farmácias sem comprometer a qualidade do serviço prestado à população. Outro desafio passa pela necessidade de continuar a valorizar o papel do farmacêutico e garantir condições que permitam manter elevados padrões de qualidade.

«Portugal possui uma das redes de farmácias mais qualificadas e eficientes da Europa e o Estado deve, cada vez mais, valorizar o papel do farmacêutico»

Como imagina a farmácia comunitária daqui a dez anos?

Muito dependerá das opções políticas e da forma como o setor for enquadrado nos próximos anos. Portugal possui uma das redes de farmácias mais qualificadas e eficientes da Europa. Seria importante preservar esse património, garantindo condições para que as farmácias continuem a investir em tecnologia, inovação e recursos humanos. Se houver uma visão estratégica adequada, acredito que a farmácia comunitária continuará a desempenhar um papel cada vez mais relevante no sistema de saúde.

Que objetivos gostaria de concretizar nos próximos anos?

Encontro-me atualmente numa fase mais orientada para a gestão e para a preparação do futuro da organização. O meu principal objetivo é garantir a continuidade do projeto e assegurar que os valores que estiveram na sua origem permanecem vivos nas próximas gerações. As minhas duas netas estão ambas a estudar em Ciências Farmacêuticas e há esperança na continuidade, tendo em conta o crescimento em si, a sustentabilidade e a preservação da identidade da Farmácia Oliveira.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos utentes que acompanham a farmácia há várias gerações?

Gostaria de agradecer a confiança que têm depositado em nós ao longo de todos estes anos. A Farmácia Oliveira continuará a pautar a sua atuação pelos mesmos princípios que definimos no primeiro dia: honestidade, qualidade de serviço, proximidade e respeito pelos utentes. São as pessoas que dão sentido ao nosso trabalho e é para elas que continuaremos a trabalhar todos os dias, com o mesmo compromisso e dedicação que nos acompanham há mais de quatro décadas.

 

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