Francisco Ferreira é sócio executivo da AGRIFER e destaca-se por uma abordagem de liderança assente no equilíbrio entre desempenho e propósito. Alicerçado em princípios como a disciplina, a resiliência e a ética, integra no seu percurso profissional práticas como o desporto, a leitura e a espiritualidade, que influenciam de forma direta a sua tomada de decisão e a cultura organizacional que promove. Nesta entrevista, partilha a sua visão sobre liderança, bem-estar e responsabilidade no contexto empresarial.
A sua agenda enquanto sócio executivo da AGRIFER é, naturalmente, exigente. De que forma a prática regular de desporto – como BTT, running, karaté ou rafting – influencia a sua disciplina, resiliência e capacidade de tomada de decisão no contexto empresarial?
É uma questão pertinente. Muitas pessoas dizem-me que não têm tempo para o desporto e não compreendem como consigo integrá-lo na minha rotina. A verdade é simples: eu não coloco o desporto à frente do trabalho, mas aproveito todas as janelas disponíveis. Ando frequentemente com equipamento no carro e, sempre que surge uma oportunidade, seja uma reunião que falha ou um intervalo inesperado, utilizo esse tempo para correr ou treinar. Sou muito rigoroso com o trabalho, mas reconheço no desporto uma fonte de equilíbrio. Dá-me energia, melhora o meu estado de espírito e aumenta a minha capacidade de resposta. Ao correr, sinto que todo o organismo entra em funcionamento: o corpo, a mente, a circulação. Isso traduz-se numa maior clareza mental e numa postura mais positiva ao longo do dia. Além disso, contribui para a minha condição física. Não procuro parecer mais novo, tenho 60 anos e assumo-o, mas mantenho uma forma física acima da média para a minha idade. Essa vitalidade tem impacto direto na forma como encaro o trabalho e os desafios diários.
Considera que estas práticas incentivam a forma como encara metas, riscos e desafios no crescimento da empresa?
Sem dúvida. O desporto é uma escola de disciplina e resiliência. Corro muitas vezes sozinho e, nesses momentos, confronto-me com o cansaço, com as condições adversas e com a tentação de desistir. No entanto, estabeleço objetivos claros, por exemplo, completar uma determinada distância, e cumpro-os. Esse compromisso comigo próprio reflete-se na vida profissional. Treino a persistência, a consistência e a capacidade de não desistir perante dificuldades. Mesmo quando enfrentei uma lesão recente, procurei adaptar-me sem parar totalmente. Essa atitude é semelhante à que adoto na empresa: perante adversidades, ajusto o caminho, mas mantenho o foco. Ser empresário é lidar diariamente com incerteza e risco. O desporto ajuda-me a desenvolver a resistência emocional necessária para enfrentar essas exigências.
«Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única»
Em que medida esses princípios se refletem na cultura organizacional que promove na AGRIFER?
Na AGRIFER, procuro traduzir esses princípios numa cultura organizacional assente no exemplo, na proximidade e na valorização do bem-estar das pessoas. Ainda recentemente tive a oportunidade de visitar uma empresa mais jovem do que a nossa, altamente dinâmica e já com uma dimensão global impressionante, o que reforçou em mim a convicção de que o crescimento sustentável está profundamente ligado à cultura interna que se constrói desde cedo. Admiro igualmente vários casos de sucesso na região de Braga, liderados por pessoas que conseguiram desenvolver estruturas empresariais robustas sem perder de vista os valores humanos. Essa inspiração leva-me a refletir continuamente sobre práticas que possam contribuir para um ambiente mais saudável e produtivo. Acredito, por exemplo, na importância de rotinas de bem-estar físicas e mentais no início do dia de trabalho. São práticas comuns noutras culturas empresariais, como a japonesa, e que reconheço como potencialmente muito positivas. No entanto, sei que a sua adoção depende de um enquadramento cultural e de uma aceitação genuína por parte das equipas. Na AGRIFER, quando abordo esses temas, há ainda alguma resistência natural, encarada com leveza pelos colaboradores, o que respeito plenamente. A minha abordagem passa, portanto, não pela imposição, mas pela sensibilização e pelo exemplo. Procuro incentivar hábitos saudáveis, partilhar experiências pessoais, como o facto de ter deixado de fumar, e promover uma cultura de respeito por todas as escolhas individuais. Identifico-me muito com a frase “Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única”. Portanto, acredito que a influência positiva, consistente e autêntica, é a forma mais eficaz de inspirar mudanças. Em suma, o que procuro é criar um ambiente onde cada colaborador se sinta motivado a cuidar de si próprio e a reconhecer que o seu bem-estar tem impacto direto no seu desempenho. Estou convicto de que equipas mais equilibradas, saudáveis e energizadas tendem a ser também mais produtivas e realizadas.

Existem iniciativas internas na AGRIFER que promovam esse equilíbrio entre bem-estar físico e desempenho profissional?
Na AGRIFER, temos vindo a desenvolver, ao longo dos últimos anos, algumas iniciativas com o objetivo de promover o equilíbrio entre o bem-estar físico e o desempenho profissional. Entre essas ações, destacam-se a organização pontual de eventos desportivos, sobretudo na vertente de BTT, realizados tanto localmente como fora de portas, como foi o caso mais recente em Boticas. Estas iniciativas surgem, muitas vezes, num contexto informal, envolvendo amigos e estando abertas à participação dos colaboradores. Embora, com alguma pena minha, a adesão interna nem sempre seja significativa, há colaboradores que, pontualmente, se disponibilizam para apoiar na organização. Regra geral, assumo o patrocínio destas atividades, nomeadamente ao nível das despesas e das refeições, incentivando, em contrapartida, a realização de donativos que revertem a favor de causas solidárias. Ao longo do tempo, já apoiámos diversas entidades e iniciativas, como a APPACDM de Vieira do Minho, a CERCI, a ajuda à Carolina e, mais recentemente, a Cruz Vermelha de Boticas. Paralelamente, também promovemos, ocasionalmente, algumas atividades lúdicas internas. Ainda assim, reconheço que não existe, de forma generalizada, uma forte adesão dos colaboradores a este tipo de iniciativas, apesar dos esforços de motivação. Importa, no entanto, salientar um aspeto positivo: recentemente, um grupo de colaboradores começou a praticar corrida nas primeiras horas da manhã, o que me deixa particularmente satisfeito. Independentemente de ter ou não resultado de uma influência direta da empresa, considero que é um sinal muito positivo e com claros benefícios para o bem-estar e, consequentemente, para o desempenho profissional.

«A leitura ajuda-me a pensar melhor, a tomar decisões mais ponderadas e a crescer enquanto pessoa»
A leitura é também uma das suas últimas descobertas e está frequentemente apontada como um hábito transformador. Que tipo de obras privilegia e de que forma essas leituras contribuem para a sua visão estratégica e capacidade de inovação?
A leitura tem sido transformadora. Durante muitos anos, tive livros por ler, o que me gerava alguma frustração. Hoje, faz parte da minha rotina e do meu crescimento pessoal. Privilegio obras que promovem reflexão interior, filosofia, espiritualidade, textos que questionam e aprofundam o sentido da vida. Não procuro apenas conhecimento técnico ou gestão, mas sobretudo desenvolvimento humano. O último livro que li foi “Para os Caminhantes Tudo é Caminho”, de José Tolentino Mendonça. Agora estou a ler “O Livro do Silêncio”, de Sara Maitland. A leitura ajuda-me a pensar melhor, a tomar decisões mais ponderadas e a crescer enquanto pessoa. É, a par do desporto e da espiritualidade, um dos pilares do meu equilíbrio.

Como integra a sua família nestas práticas?
A família é a base de tudo. Procuro envolver os meus filhos e a minha esposa, sobretudo através do contacto com a natureza. Escolho destinos que permitam atividades ao ar livre, montanha, mar, rios, e incentivo-os a afastarem-se dos ecrãs. Participamos juntos em caminhadas, eventos desportivos e momentos de lazer ativo. Mais do que impor, procuro criar oportunidades para que vivam essas experiências.

«A fé oferece-me um referencial ético claro entre o certo e o errado nas decisões mais sensíveis»
A sua ligação à espiritualidade, nomeadamente através da Associação Cristã de Empresários e Gestores, revela também uma dimensão ética e de propósito. De que forma essa vivência espiritual influencia o seu estilo de liderança e as decisões mais sensíveis?
A minha vivência espiritual, profundamente enraizada na fé cristã, tem um impacto direto e consistente na forma como lidero e tomo decisões, sobretudo nas mais sensíveis. No exercício diário das minhas funções, sou constantemente confrontado com escolhas e ações que exigem discernimento. Nesse contexto, procuro, de forma cada vez mais consciente, avaliar se estou a agir de acordo com aquilo que considero ser correto. É precisamente a fé que me oferece esse referencial ético entre o certo e o errado. Sou católico praticante e encontro, quer na participação regular na eucaristia, quer na ligação à ACEGE, que encaro como uma verdadeira formação contínua para empresários, um espaço de reflexão e aprofundamento que me ajuda a integrar os princípios da fé na minha atividade profissional. Esta dimensão espiritual proporciona-me serenidade, especialmente em momentos de adversidade ou de maior pressão decisória. Além disso, a fé tem contribuído para uma maior estabilidade emocional. Hoje, procuro manter uma postura mais equilibrada, sem oscilações excessivas perante boas ou más notícias. Essa constância permite-me decidir com maior clareza e ponderação, ancorando as minhas opções numa visão mais ampla do bem comum e nos ensinamentos cristãos. Tenho plena consciência das minhas limitações humanas e não procuro a perfeição, mas sim um caminho de crescimento contínuo. Acredito que esse crescimento não se esgota nas dimensões física, intelectual ou relacional. Para mim, é essencial uma evolução interior, que só é possível através da espiritualidade. Neste momento da minha vida, não concebo o meu equilíbrio emocional e mental sem essa dimensão. A fé também me ensina a cultivar a humildade, a reconhecer que não tenho todas as respostas e que, perante decisões mais complexas, é importante parar, refletir e procurar orientação interior. Naturalmente, nem sempre acerto, mas acredito que, ao fortalecer esta vivência espiritual, torno-me progressivamente mais consciente, mais sereno e mais assertivo nas decisões que tomo.
Considera que os valores cristãos podem coexistir com a competitividade empresarial?
Para mim, não só coexistem como são fundamentais. Cada pessoa encontrará o seu caminho, mas no meu caso, a fé é parte integrante da forma como vivo e lidero.
A AGRIFER tem demonstrado envolvimento em iniciativas de responsabilidade social. Até que ponto essa postura resulta das suas convicções pessoais?
A postura da AGRIFER em matéria de responsabilidade social resulta, em larga medida, de convicções pessoais, mas também de um legado que procuramos honrar e preservar. Costumo afirmar que a construção de uma reputação exige tempo, consistência e compromisso e, nesse sentido, orgulhamo-nos de ser reconhecidos no mercado como uma empresa pautada por boas práticas. Recentemente, fomos distinguidos com o certificado de empresa de pagamento pontual, atribuído por entidades como a Informa DB, a ACEGE, o IAPMEI e a CEP, entre outras, acumulando igualmente os estatutos de PME Líder e PME Excelência. Estas distinções refletem não apenas a solidez financeira, mas também a nossa preocupação em adotar princípios alinhados com critérios ESG, ajustados à nossa dimensão. Apesar de sermos uma empresa de pequena dimensão, procuramos ter uma atuação responsável e equilibrada, quer ao nível ambiental, quer no envolvimento com a comunidade. Esse compromisso traduz-se, por exemplo, no apoio a iniciativas culturais, como o Festival do Órgão, e em contributos regulares a associações desportivas e outras entidades que necessitam de apoio. Naturalmente, não conseguimos responder a todas as solicitações, mas mantemos uma preocupação constante com o meio envolvente. Esta forma de estar tem raízes profundas na história da empresa, iniciada pelo meu pai, e que continuo a cultivar com dedicação. A marca AGRIFER, apesar de hoje já não refletir diretamente a atividade original ligada ao setor agrícola, conquistou um reconhecimento sólido no mercado. Em determinado momento, equacionei a possibilidade de alterar a designação da empresa, inclusive como forma de homenagem, recuperando o nome original. No entanto, o meu pai sempre defendeu a manutenção da marca, precisamente pelo valor reputacional que construiu ao longo de décadas, decisão que respeito e mantenho. Hoje, essa herança é um dos pilares da nossa atuação. Para além das marcas que representamos, existe um nome que importa preservar e dignificar. Com mais de 60 anos de presença no mercado, a AGRIFER afirma-se como uma empresa capaz de responder a elevados níveis de exigência, trabalhando com algumas das maiores empresas de construção em Portugal, muitas delas sediadas na região de Braga, bem como com organizações de diversos setores.
Num equilíbrio entre vida pessoal e profissional, sente que são os seus hobbies que o tornam um melhor gestor, ou é a gestão que o leva a procurar esses interesses?
É uma excelente questão. Considero que existe uma relação indissociável entre ambas as dimensões. Por um lado, a minha individualidade através de valores, interesses e forma de estar, influencia naturalmente a forma como exerço a gestão. Por outro, procuro estruturar a minha vida pessoal de modo a sustentar esse equilíbrio, desenvolvendo competências que me permitam desempenhar melhor a minha função. Na prática, é difícil, senão impossível, estabelecer uma separação clara entre vida pessoal e profissional, sobretudo no contexto empresarial, onde a dedicação é contínua. Assim, vejo esta relação como uma interação dinâmica onde os meus interesses pessoais contribuem para o meu desempenho enquanto gestor, e a exigência da gestão leva-me, simultaneamente, a procurar nesses interesses um contraponto essencial para manter o equilíbrio.
«Descobri cedo que não tinha asas e aprendi a reconhecer as minhas limitações»
Que conselhos deixaria a outros líderes empresariais sobre a importância de cultivar interesses pessoais?
Não tenho a pretensão de dar lições. Aprendo com muitos empresários que admiro. Mas posso partilhar aquilo que tem funcionado comigo. Durante muito tempo, procurei respostas fora de mim. Hoje, percebo que o processo é inverso: a reconstrução deve começar no interior. Quando estamos bem connosco próprios, isso reflete-se em tudo o resto, tanto na família, como na empresa e nas relações. Se há algo que faço, que seja desporto, leitura ou espiritualidade, e puder servir a outros, então já valeu a pena. Não funcionará com todos, mas pode fazer a diferença para alguém. A melhor forma de influenciar os outros é pelo exemplo. É a única que conheço.
Para terminar, como resume esse percurso pessoal?
Com humildade. Em jovem, cheguei a acreditar que poderia ser mais do que sou. Um episódio simples ensinou-me o contrário: em pequeno uma senhora dizia-me muitas vezes que eu era um anjo e a determinada altura decidi subir a uma árvore e tentar “voar”. Foi aí que percebi que não tinha asas e descobri as minhas limitações. Hoje sei que ainda tenho muito caminho a percorrer. Essa consciência mantém-me focado no crescimento contínuo, tanto pessoal como profissional.

