Conhecimento

Uma urgência de coletivo

Não interessa cantar cantigas antigas, hinos de revoluções, se não lhes compreendemos a essência em palavras e não atingimos, presos à nossa inércia individual, a poesia de ser sempre o povo, o coletivo, quem mais ordena. Portugal é um país maioritariamente amorfo, um coletivo partido de desiludidos consigo mesmos, de indivíduos com ausência de resolução interna, marcados pelas vidas que não queriam ter vivido mas que foram incapazes de mudar. “Vai-se andando, haja saudinha” e a eterna certeza que não querermos que tudo mude, por um lado, mas que fique exatamente na mesma porque, sendo mau ou assim-assim, pelo menos, já estamos habituados. E como está tudo, cá dentro, cheio de calos, de feridas e de mágoas que somos incapazes de enfrentar, optamos por ser ativistas de sofá ligando o 760 e troca o passo e comparticipando com 60 cêntimos mais IVA seja lá o que for, rezando umas missas pelas almas de outrem que, em muitos casos, nem sequer respeitamos ou acarinhamos com honestidade e, claro, destilamos ódio nas redes sociais, nas bancadas dos jogos de futebol da terra e na comunidade onde moramos. Se for preciso nem sequer vamos votar, mas somos uns indignados de primeira no que toca a tudo o que altera ou desafia o triste estado em que, confortavelmente, nos habituamos a estar. 

“Mais vale só que mal acompanhado”, diz a sabedoria popular mas, na verdade, o nosso problema não são as más companhias, antes o medo que a nossa luz débil se apague, ou que a nossa escuridão e pequenez se tornem demasiado óbvias no momento em que arriscamos unir-nos em prol de objetivos comuns. Ou talvez a questão seja mais corriqueira e passe, pura e simplesmente, por não termos qualquer objetivo para o coletivo, para o comum. Queremos um empreguinho porreiro e que não mate muito mas, de preferência, que seja razoavelmente bem pago. Se não for bem pago vamos usar esse argumento para a nossa falta de motivação, obsessão com a hora de saída e a pausa do café e para uma evidente falta de brio (porque se aprofundasse o mote e vasculhasse a ausência de paixão terminava já a prosa e a Flávia Barbosa precisa de mais alguns carateres). Com esse empreguinho vamos fazer aquilo que, regra geral, vimos fazer a todos aqueles que criticamos e pelos quais não nutrimos qualquer espécie de admiração: acasalar formalmente, aumentar a família (quem sabe, até, ter um cão), endividarmo-nos para termos a melhor casa possível e termos mais um motivo para nunca mais podermos mudar de vida, ir trocando de automóvel na expetativa de um dia termos aquela Volvo V40 para ir buscar os netos à creche e, se tudo correr mesmo bem e como previsto, sem grandes percalços, fazemos uma quinzena de férias algures a morenar a pele, naquele resort tudo incluído. Se, então, ainda conseguirmos fazer uns dias de férias na neve e pôr os filhos a estudar num colégio privado, pode-se dizer que somos pessoas de enorme êxito, com um nível de vida invejável, os maiores da nossa rua e o orgulho das nossas famílias. Em toda esta narrativa enfadonha o nosso máximo de ação coletiva com certeza será fazer parte da associação de pais e as reuniões de condomínio, se não tivermos a sorte de habitar uma moradia sem este tipo de constrangimentos partilhados. 

Seremos gratos pela vida que Deus nos deu e vamos continuar a admirar todas aquelas pessoas que perseguimos nas redes sociais, nas revistas e na televisão e que fizeram outras opções, tendo sido capazes de, com a sua ação concreta e mão mera existência patológica, mudar o mundo, esse mundo em que somos os reis do bairro, mas onde nem sequer nos dignamos a votar. No fundo, o paradigma social (que, não duvido, sirva aos níveis de felicidade pretendidos pela maioria) moldou-nos o caminho e não percebemos porque não dormimos, nos empanturramos de comprimidos para equilibrar o corpo e a mente e sentimos, de uma forma geral, um ódio atroz pela felicidade alheia encontrada na irreverência, na coragem e do encontro frontal com a essência. Porque não somos todos iguais e não temos que querer todos as mesmas coisas, ainda que tenhamos sido educados nessa crença e nessa única ambição. Mas achamos melhor ser. É mais fácil e, assim, vamos negando os nossos fantasmas e as nossas cismas. Negamos a pés juntos que somos racistas ou homofóbicos. Por nós, tudo bem e cada um sabe de si mas, de preferência que uma efeméride tal não aconteça no seio da nossa família, isso é que não! E somos muito a favor da igualdade de género. Muito. Mas se alguém tiver que abdicar de responsabilidades familiares em prol de uma progressão do tal empreguinho, não será o homem com certeza, pois as crianças estão bem é com as mães. Aliás, cada vez mais me convenço que se for para ter um filho nestes pressupostos sociais, mais vale ir a uma clínica e investir na chamada “produção independente”, já que serão das melhores as culpas e os méritos. Depois ficamos muito indignados com o assassinato de um homem negro num bairro em Moscavide porque nunca tínhamos dado conta da quantidade de retornados mal resolvidos que andam por aí, incapazes de perceber que houve um dia em que o mundo mudou e a exploração do outro teve um fim (ou talvez não). E dizemos à boca cheia que não temos nada contra os gays e as lésbicas, mas logo fazemos umas piadinhas rápidas sobre a sua sexualidade. “Não negue à partida uma ciência que desconhece”, diria. E queixamo-nos dos brasileiros que agora escolheram Portugal e que, malditos, fizeram disparar a especulação imobiliária e andam (elas) a roubar os nossos maridos. Coitadinhos dos maridos, umas vítimas! Mas não temos nada contra os emigrantes. Nada. Eles podiam era ir para outros países ou, pelo menos, outras cidades. Esquecemo-nos que Portugal é um país de emigrantes e torna-viagens e que em muitos momentos da nossa histórica saímos daqui em busca de uma vida melhor ou de, apenas, sobreviver à fome e ao fascismo. É a santa hipocrisia das boas famílias que sonham com a V40. Assim seja.

Portugal tem um problema pandémico de ausência total de sentido de coletivo. Receamos ligar-nos uns aos outros e construir em conjunto. E quando apostamos na economia social (nas associações, cooperativas, fundações, etc.) rapidamente caímos na tentação do engodo e da corrupção. Queremos enriquecer à força, ainda que continuemos pobres de espírito. Queremos ser chefes de qualquer coisa, sem sermos capazes de partilhar a liderança com outros, tão bons e tão capazes, até melhores, do que nós. Não tememos as trevas. Não. Porque para o fim-do-mundo já nos preparam todas as religiões do livro: um dia isto explode, já estamos a contar com isso e é por isso que cada dia é uma bênção e temos que ser gratos, ainda que não tenhamos feito nada, absolutamente nada para merecer, sequer, existir. Não importa. Rezamos e isso bastou. Fomos serventes, escravos da nossa fé. Adoramos a submissão porque ela justifica a nossa incapacidade de tomarmos decisões. 

Um amigo músico ensinou-me, na altura em que dirigi uma das áreas de programação de Guimarães 2021, Capital Europeia da Cultura, que “ninguém é alguém sozinho” e é tão verdade que até arrepia. Há uma magia e uma luz incandescente quando nos juntamos, formamos fileiras e lutamos juntos. Talvez seja por isso que é tão emocionante estarmos a assistir a um concerto ou aquela festa em que celebramos mais um título ganho pela nossa equipa. Não é só a festa: é a energia de um coletivo que vibra ao entoar da mesma canção. Talvez seja por isso que quem se manifesta uma vez, o faz sempre, ou que quem descobre o poder de uma equipa sentada a uma mesa forte se vicia nesse néctar divino. O povo tem sempre a palavra e tem sempre a voz e o que esta pandemia nos provou é que o isolamento nos enlouquece e, não, não revelou o melhor de cada um de nós mas o pior, todo o ódio que tínhamos dentro de nós e vamos atirando, aqui e ali. 

Agosto arranca com a comemoração dos 91 anos de nascimento de José Afonso (2 de agosto de 1921 – 23 de fevereiro de 1987) e, num ano em que foi pecado comemorar o 25 de Abril de 1974, de cada vez que nos ocorrer cantarolar as suas palavras, façamos um exercício de consciência e lembremo-nos desta urgência de coletivo e de quem somos nós no meio do todo: mais um ou o um que quer fazer a diferença com outros? Vamos seguir o caminho do paradigma social ou arriscar saber quem somos e assumir a nossa originalidade, ainda que disruptiva? Vamos sonhar juntos e construir coletivamente, ou continuar a orar à santa televisão, sem tirar o rabo do sofá? Como alguém dizia estes dias, “vale a pena pensar nisto”. Há uma urgência de coletivo aqui e só depende de nós mudar para que aconteça. O Zeca havia de gostar disto. 

Helena Mendes Pereira
Curadora / Escritora

 

 

Deixar comentário