Há projetos que nascem de uma ideia. Outros começam muito antes, na cumplicidade construída ao longo de uma vida. É o caso de Elisabete Pereira e Miguel Oliveira, casal na vida e parceiros na criação de um projeto que une literatura infantil, música e recursos pedagógicos, conquistando escolas, famílias e educadores em todo o país.
A história começou na Escola Superior de Educação de Viana do Castelo, onde ambos frequentaram a licenciatura em Ensino Básico de Português/Inglês e realizaram o estágio pedagógico em conjunto. Foi aí que aprenderam a trabalhar em equipa, uma capacidade que, anos mais tarde, daria origem a um projeto artístico e educativo singular.
Embora a escrita tenha surgido naturalmente, foi a música que abriu esse caminho. Miguel Oliveira, músico com uma carreira consolidada, vocalista e guitarrista da banda Sinal e do grupo de música tradicional Canto D’Aqui, desafiou Elisabete Pereira a escrever histórias. O exercício despertou nela o gosto pela escrita criativa, sem que imaginasse que viria a tornar-se autora publicada. A experiência acumulada por ambos enquanto professores revelou igualmente uma necessidade sentida nas salas de aula: criar histórias capazes de estimular a imaginação e, simultaneamente, transmitir valores essenciais.
Da sala de aula para os livros
Os primeiros textos foram sendo testados junto de alunos, professores e educadores, de forma anónima, permitindo recolher opiniões espontâneas e aperfeiçoar cada obra. O incentivo de Luís Mourão, antigo professor universitário, e o apoio institucional de entidades como a Câmara Municipal de Vila Verde foram determinantes para avançar com a publicação independente do primeiro livro, em 2021, “A Menina que Não Sabia Contar”.
Ao projeto juntou-se Paulo Salvador Lopes, ilustrador e amigo de longa data do casal, responsável por dar identidade visual às histórias. Assim nasceu uma equipa em que cada elemento assume um papel bem definido: Elisabete escreve, Miguel compõe as canções e Paulo transforma as palavras em imagens.
Cada livro é acompanhado por uma canção original inspirada na narrativa, criando uma experiência de leitura mais envolvente. Daí, resultam bandas sonoras pedagógicas que ganham vida própria e se transformaram em autênticos fenómenos nas salas de aula, como “Jacaré Barnabé”, “Reduzir, reutilizar, reciclar”, “A leitura é fundamental” ou “Gosto de ti”. Mas, desde o início, a música nunca foi encarada como um simples complemento. Com a evolução do projeto, surgiram também plataformas digitais acessíveis através de QR Code, disponibilizando músicas, vídeos, jogos educativos, fichas de trabalho, propostas curriculares, atividades artísticas e materiais adaptados à educação inclusiva, incluindo recursos em Língua Gestual Portuguesa e comunicação por símbolos.
Além de contar histórias, as obras procuram responder a desafios atuais. “A Menina que Não Sabia Contar” «aborda a inclusão e o respeito pelos diferentes ritmos de aprendizagem». “Um Mundo Paralelo” «sensibiliza para a sustentabilidade e a política dos cinco R’s». “O Mistério da Gruta” «valoriza a leitura, a amizade e o património cultural», enquanto que o mais recente livro “Amizades Inesperadas” «promove a empatia, o combate ao bullying e a importância da beleza interior».

A preocupação pedagógica estende-se igualmente à linguagem. Professores de Português, os autores procuram um equilíbrio entre riqueza vocabular e acessibilidade, construindo textos que podem ser explorados em contexto escolar através de diferentes recursos literários e expressivos.
O rigor acompanha todas as fases da produção. «Cada livro é cuidadosamente revisto antes da impressão, desde a narrativa até à tipografia, passando pelas ilustrações, composição musical e design gráfico», explicam à Revista Minha. Só depois nasce a música, «inspirada pelas personagens e pelo ambiente da história», sendo posteriormente criada uma coreografia que completa a experiência apresentada nas escolas.
Cinco livros publicados, vários deles com sucessivas reedições, uma edição em língua inglesa dedicada à sustentabilidade e centenas de sessões realizadas em escolas demonstram a crescente aceitação do projeto. As apresentações, dizem, «transformam-se frequentemente em momentos de grande interação, com as crianças a cantar os refrões, a participar nas coreografias e a descobrir o prazer da leitura através da música».
Esse reconhecimento leva também os autores a participar em conferências, festivais literários e encontros de educação em Portugal continental, Madeira e Açores, regressando inclusivamente à instituição onde tudo começou como exemplo de inovação educativa e empreendedorismo.
Crescer sem perder a identidade
Apesar do crescimento, Elisabete Pereira e Miguel Oliveira mantêm o mesmo princípio que esteve na origem do projeto: privilegiar a qualidade em detrimento da quantidade. Assumem que nunca desenvolveram este trabalho com objetivos comerciais, mas sim «com a missão de criar livros que ajudem a formar leitores mais curiosos, críticos e conscientes».
O futuro passa por continuar a escrever novas histórias, alargar a distribuição nacional e internacional e criar uma equipa que permita acompanhar a crescente dimensão do projeto. Entre a exigência da profissão docente, a vida familiar e as apresentações em escolas, o casal acredita que «ainda há muito caminho por percorrer».
Cinco anos após o lançamento do primeiro livro, o trabalho desenvolvido por Elisabete Pereira e Miguel Oliveira afirma-se cada vez mais como um projeto educativo multidisciplinar, onde literatura, música e ilustração se unem para despertar o gosto pela leitura e promover valores como a inclusão, a amizade, a sustentabilidade e a cidadania. Uma história que começou na universidade e que continua a ser escrita, página após página, ao ritmo das palavras e das canções. Para livros e marcações de apresentações, os interessados podem contactar através do website https://is.gd/escritoraep.
