entrevista

ALEXANDRA ROEGER | PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA BRAVAL «Não basta saber reciclar. É preciso fazê-lo todos os dias»

A celebrar 30 anos de atividade, a Braval entra numa nova fase, marcada por metas ambientais mais ambiciosas, inovação e novos modelos de gestão. Nesta entrevista, a Presidente do Conselho de Administração, Alexandra Roeger faz o balanço do percurso da empresa e aponta os desafios que irão definir o futuro da gestão de resíduos no Baixo Cávado.

 

A Braval celebra 30 anos de existência num período em que a gestão de resíduos enfrenta desafios ambientais e regulamentares cada vez mais exigentes. Que balanço faz destas três décadas de atividade e quais considera terem sido os principais marcos na transformação da empresa e da região do Baixo Cávado?

O balanço é muito positivo, embora tenhamos plena consciência de que, na área dos resíduos, o trabalho nunca está concluído. Celebrar 30 anos é olhar para um caminho muito significativo, que começou numa realidade marcada pela existência de lixeiras a céu aberto e por uma reduzida consciência relativamente ao destino dos resíduos. A criação da Braval permitiu dar uma resposta conjunta aos municípios de Braga, Amares, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Vieira do Minho e Vila Verde. Essa articulação intermunicipal foi, desde logo, um dos grandes marcos deste percurso. O encerramento e a recuperação ambiental das antigas lixeiras, a entrada em funcionamento do aterro sanitário, a expansão da rede de ecopontos, a construção da estação de triagem e, mais tarde, a instalação de unidades de tratamento mecânico, valorização orgânica e produção de energia representam etapas fundamentais desta transformação. Mas a evolução da Braval não se mede apenas pelas infraestruturas construídas. Mede-se também pela mudança de mentalidades, pelo trabalho desenvolvido com as escolas, com as instituições, com as empresas e com milhares de cidadãos. Hoje temos um sistema muito mais completo, mais exigente e tecnicamente preparado. Ao mesmo tempo, enfrentamos metas ambientais cada vez mais ambiciosas, novos modelos de recolha, custos de tratamento mais elevados e uma pressão crescente para reduzir drasticamente a deposição em aterro. Estes 30 anos devem, por isso, ser um motivo de orgulho, mas também um ponto de partida para uma nova fase. O nosso compromisso é continuar a transformar o sistema, adaptando-o às exigências ambientais, legais e às necessidades das populações.

Ao longo destes 30 anos, a Braval passou do encerramento das antigas lixeiras para um Ecoparque com soluções de valorização de resíduos, produção de energia e economia circular. Em que medida considera que a empresa contribuiu para melhorar a qualidade ambiental e a qualidade de vida dos cerca de 300 mil habitantes dos seis municípios abrangidos?

A diferença é muito significativa. Há 30 anos, muitos dos resíduos produzidos na região acabavam em lixeiras sem impermeabilização, sem tratamento de lixiviados, sem controlo de gases e sem qualquer possibilidade de recuperação de materiais. Hoje existe um sistema integrado, com infraestruturas preparadas para receber, tratar, separar e valorizar diferentes tipos de resíduos. Temos recolha seletiva, triagem de embalagens, tratamento dos resíduos indiferenciados, valorização da matéria orgânica, aproveitamento do biogás para produção de energia e encaminhamento de diferentes materiais para reciclagem. Isso representa uma melhoria concreta na proteção dos solos, das linhas de água, da qualidade do ar e da saúde pública. Representa também uma região mais limpa e um serviço público essencial, que funciona diariamente e que muitas vezes só é valorizado quando, por algum motivo, deixa de funcionar. A Braval contribuiu ainda para criar uma maior consciência ambiental. Muitas das crianças que participaram nas primeiras ações de sensibilização são hoje adultos, pais e profissionais que já encaram a separação de resíduos de uma forma completamente diferente. Naturalmente, ainda existem problemas e desafios. Não queremos passar a ideia de que tudo está resolvido. Continuamos a ter demasiados materiais recicláveis no lixo indiferenciado e continuamos a precisar de melhorar o desempenho ambiental do sistema. Mas o ponto de partida e a realidade atual são incomparáveis. A evolução da Braval acompanhou a evolução da própria região e contribuiu para que a gestão de resíduos passasse de um problema sem resposta adequada para um serviço público estruturado, tecnicamente acompanhado e orientado para a valorização dos recursos.

Apesar dos progressos alcançados na recolha seletiva, a Braval continua a alertar que uma parte significativa dos resíduos depositados em aterro poderia ser reciclada. O que continua a falhar na separação feita pelos cidadãos e que estratégias poderão ser decisivas para alterar comportamentos?

O principal problema é que ainda existe uma diferença muito grande entre aquilo que as pessoas sabem e aquilo que fazem diariamente. A maioria dos cidadãos reconhece a importância da reciclagem e sabe identificar os ecopontos, mas esse conhecimento nem sempre se transforma num comportamento consistente. Diria que o principal problema já não é a falta de informação. Hoje praticamente todos sabem que papel, embalagens ou vidro devem ser separados. O desafio está em transformar esse conhecimento num hábito diário. Continuamos a encontrar demasiados recicláveis no contentor de resíduos indiferenciados e isso significa perda de recursos, aumento de custos e maior deposição em aterro. Por isso, temos de continuar a apostar na proximidade. Quanto mais simples for reciclar e quanto mais as pessoas perceberem o destino dos resíduos, maior será a participação. Também acredito que a nova geração terá um papel decisivo. As crianças influenciam cada vez mais os comportamentos das famílias. Também será importante dar mais retorno ao cidadão. As pessoas precisam de perceber o que acontece aos materiais depois de os separarem, qual o benefício ambiental e económico desse gesto e quanto custa ao sistema quando não o fazem. A mudança acontecerá através de uma combinação de proximidade, melhores serviços e comunicação clara. Não podemos colocar toda a responsabilidade nos cidadãos, mas também não podemos retirar-lhes responsabilidade. O sistema tem de dar condições e cada pessoa tem de fazer a sua parte.

A campanha “Vidro Reciclado, Futuro Sustentado” estabelece uma meta ambiciosa de atingir 90% de reciclagem de vidro até 2030. Considera este objetivo realista? Que mudanças concretas serão necessárias para passar dos atuais níveis de reciclagem para essa meta?

É uma meta muito exigente, mas é precisamente por ser exigente que nos obriga a acelerar a mudança. O vidro tem uma enorme vantagem ambiental: pode ser reciclado sucessivamente sem perder qualidade. Quando uma garrafa ou um frasco são colocados no ecoponto verde, o material pode regressar à indústria e ser utilizado na produção de novas embalagens. O problema é que ainda há demasiado vidro a ser colocado nos resíduos indiferenciados, sobretudo no setor da restauração, hotelaria e eventos, onde são geradas grandes quantidades num curto espaço de tempo. Será necessário reforçar a recolha dedicada, aumentar a sensibilização, melhorar a acessibilidade aos vidrões e trabalhar muito de perto com restaurantes, cafés, hotéis e organizadores de eventos.

«O futuro da Braval mede-se pela capacidade de transformar resíduos em valor»

A sensibilização ambiental tem sido uma aposta permanente da Braval, através de campanhas, ações nas escolas, dias abertos e iniciativas dirigidas ao setor Horeca. Como avalia o impacto destas ações e que novas abordagens poderão ser adotadas para chegar aos públicos que continuam afastados da reciclagem?

É uma aposta que nunca pode parar. Ao longo dos anos realizámos milhares de ações junto das escolas, recebemos milhares de visitantes no Ecoparque e desenvolvemos campanhas dirigidas às empresas e ao setor HORECA. O mais gratificante é perceber que muitos dos jovens que visitaram a BRAVAL há dez ou quinze anos são hoje adultos que já incorporaram esses comportamentos. Ao mesmo tempo, temos de encontrar novas formas de comunicação. As redes sociais, os influenciadores locais, a comunicação digital e as ações de proximidade podem ajudar-nos a chegar aos públicos que ainda estão menos envolvidos. A educação ambiental é um investimento de longo prazo.

Um dos temas que mais preocupações tem gerado junto das populações vizinhas do Ecoparque prende-se com os odores e as consequentes reclamações. Como caracteriza atualmente essa situação? Que investimentos ou medidas têm sido implementados para minimizar este problema e que garantias pode dar às populações?

Compreendemos perfeitamente a preocupação das populações. A gestão de resíduos é uma atividade complexa e a valorização da matéria orgânica pode originar episódios pontuais de odores, sobretudo quando determinadas condições meteorológicas se conjugam. Temos vindo a implementar diversas medidas técnicas e operacionais para minimizar esse impacto, através da otimização dos processos, reforço da monitorização e melhoria contínua das instalações. Não ignoramos o problema nem o desvalorizamos. Sempre que existem ocorrências procuramos identificar rapidamente a sua origem e atuar. O compromisso da BRAVAL é continuar a investir para reduzir cada vez mais estes episódios e manter um diálogo transparente com as populações.

O Ecoparque da Braval tem vindo a receber cerca de 100 mil toneladas de resíduos por ano. A capacidade das atuais células do aterro continua a responder às necessidades futuras ou será inevitável avançar para novas infraestruturas ou soluções complementares?

O aterro continua a ser uma infraestrutura necessária, mas o nosso objetivo é que receba cada vez menos resíduos. Temos de planear a capacidade, isso é inevitável e seria irresponsável dizer o contrário. Mas a pergunta que mais me interessa não é “onde vamos construir mais aterro”, é “como reduzimos o que lá vai parar”. Toda a orientação europeia vai no mesmo sentido: cada vez menos resíduos em aterro, cada vez mais prevenção, reutilização e valorização. Isso significa que o nosso maior investimento nos próximos anos não vai ser em novas células, vai ser em conseguir tirar do circuito do aterro tudo o que ainda pode ser reciclado ou valorizado. Se formos bem-sucedidos nisso, precisamos de menos aterro, não de mais – e é isso que considero, no fundo, a verdadeira medida de sucesso.

A recente alteração do modelo de concessão, que passou a colocar a gestão da Braval na esfera dos próprios municípios, representa uma mudança estrutural. Que impacto terá esta nova realidade na estratégia da empresa, na capacidade de investimento e na articulação entre os seis municípios?

A concessão atual foi prorrogada até 31 de dezembro de 2026, e a partir de 1 de janeiro de 2027 entramos mesmo numa nova fase, com o sistema multimunicipal a dar lugar a um novo modelo intermunicipal. Não escondo que é uma mudança que exige preparação séria da nossa parte, mas está em curso e a decorrer em conformidade com o expectável. A gestão dos resíduos é uma tarefa exigente e o que importa, sobretudo, é que todas as entidades acionistas estejam em sintonia no alinhamento das prioridades e dos investimentos. É muito relevante que os seis municípios continuem a decidir em conjunto, com uma visão de região, de serviço público e de implementação de boas estratégias de gestão.

A modernização tecnológica tem sido uma constante. Quais serão os principais investimentos previstos para os próximos anos e quais as áreas consideradas prioritárias em termos de equipamentos e infraestruturas?

A modernização continuará a ser uma prioridade.  Estamos a investir na melhoria das unidades de triagem, na digitalização dos processos, na otimização da recolha seletiva, na eficiência energética e na valorização dos resíduos. Ao mesmo tempo, queremos reforçar a capacidade de adaptação às novas exigências legais, nomeadamente no domínio dos biorresíduos e da economia circular. Investir em tecnologia é importante, mas investir em eficiência operacional é igualmente essencial.

A atividade da Braval depende de uma forte componente técnica e operacional. Como caracteriza atualmente os recursos humanos da empresa?

Nenhuma tecnologia substitui as pessoas! A BRAVAL conta com uma equipa altamente qualificada, experiente e profundamente comprometida com a sua missão. É um trabalho que exige conhecimento técnico, capacidade operacional e uma enorme responsabilidade ambiental. Tenho muito orgulho nas nossas equipas, que todos os dias asseguram um serviço essencial para mais de 300 mil habitantes, muitas vezes sem que esse trabalho seja visível para a maioria das pessoas.

Muitas das metas ambientais nacionais e europeias dependem do financiamento público e de políticas consistentes. Que papel espera que o Estado continue a desempenhar no apoio aos sistemas de gestão de resíduos?

As metas ambientais são nacionais e europeias, mas concretizam-se localmente, no terreno. Por isso é fundamental existir estabilidade regulatória, financiamento adequado e políticas públicas consistentes que permitam aos sistemas planear investimentos de longo prazo. A transição para a economia circular exige infraestruturas, inovação e sensibilização. Tudo isso requer um compromisso continuado entre Estado, municípios, empresas e cidadãos.

Se tivesse de projetar a Braval para os próximos anos, quais são hoje os maiores desafios para construir um sistema de gestão de resíduos cada vez mais sustentável, eficiente e próximo dos cidadãos?

Imagino uma BRAVAL cada vez mais tecnológica, mais eficiente e ainda mais próxima das pessoas. Os próximos dez anos vão ser diferentes de tudo o que vivemos até aqui. Vamos ter de lidar com metas mais exigentes para os biorresíduos, com a pressão para descarbonizar o setor, e provavelmente com inteligência artificial a ajudar a otimizar recolhas e processos de forma que hoje ainda fazemos de forma mais manual. E vamos ter de enfrentar, mais cedo ou mais tarde, a discussão séria e a implementação de um sistema em que o pagamento dos nossos serviços se faz consoante o que cada um produz de resíduo indiferenciado – um tema pouco confortável, mas necessário. Se me pedir para resumir o maior desafio numa frase, é este: deixarmos de pensar em “gerir resíduos” e passarmos a pensar em “gerir recursos”. O sucesso da Braval no futuro não vai medir-se pela quantidade de resíduos que recebemos, mas pela quantidade de materiais que conseguimos devolver à economia. E isso não se decide só aqui dentro do Ecoparque – decide-se em cada casa, com o gesto simples de separar corretamente. O maior desafio continuará a ser o mesmo: envolver todos os cidadãos nesta mudança. Porque a economia circular não se faz apenas dentro do Ecoparque; começa em casa, com um gesto tão simples como separar corretamente os resíduos.

 

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