Há histórias que parecem desenhadas pelo destino. A de Lu Marinho começou no Brasil, ganhou novos capítulos nos Estados Unidos e encontrou em Braga o lugar onde tudo fez sentido. No Oboé, projeto que define como o grande desafio da sua vida, reúne experiências, memórias e paixões numa proposta que vai muito além da gastronomia. Nesta conversa, fala de reinvenção, das raízes que a ligam a Portugal e do legado que quer deixar na cidade que hoje chama casa.
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O ESPAÇO No emblemático Theatro Circo, o Oboé by Lu Marinho afirma-se como um dos espaços mais singulares de Braga para celebrar momentos únicos. Casamentos, eventos corporativos, experiências vínicas e celebrações privadas ganham aqui uma assinatura própria, onde gastronomia, arte, música e design se encontram. O edifício permite viver toda a ocasião num só lugar, do primeiro brinde à festa, com cada detalhe pensado à medida. |

Viveu no Brasil, nos Estados Unidos e, nos últimos dois anos, escolheu Portugal para escrever um dos capítulos mais marcantes da sua vida. O que trouxe consigo de cada um desses países e de que forma essas vivências moldaram a mulher e a empresária que é hoje?
Do Brasil trouxe as minhas raízes, a minha essência e a minha família. Dos Estados Unidos trouxe a capacidade de me reinventar. Emigrar obriga-nos a descobrir competências que desconhecíamos e a encontrar novas formas de enfrentar os desafios. Foi essa experiência que me deu coragem para, aos 60 anos, assumir um restaurante, uma área onde nunca tinha trabalhado e que nunca imaginei vir a abraçar.
Ser emigrante implica, muitas vezes, recomeçar do zero. Em algum momento sentiu medo de deixar para trás uma carreira consolidada para construir uma nova vida em Braga? O que a fez acreditar que Portugal seria o lugar certo para esse novo ciclo?
Escolhi Portugal porque sempre senti que fazia parte da minha história. Partilhamos a língua e uma cultura muito próxima daquela com que cresci. Nos Estados Unidos vivi experiências muito enriquecedoras, mas nunca me identifiquei totalmente com um estilo de vida mais acelerado e descartável. Gosto da mesa posta, do convívio, dos pequenos rituais que valorizam o tempo passado em família. Em Portugal encontrei essa proximidade, uma enorme sensação de segurança e um modo de viver que faz sentido para mim.
E particularmente em Braga…
Braga conquistou-me desde a primeira visita. A dimensão da cidade, a riqueza da arquitetura e o património fizeram-me sentir imediatamente ligada ao lugar. A minha formação em design de interiores levou-me sempre a olhar para a história dos edifícios e dos espaços. Encontrei aqui referências que me transportaram para o Rio Antigo e, de forma muito natural, senti que estava em casa.
«Um espaço deve despertar emoções e criar uma ligação com quem o vive»
O seu avô português deixou-lhe uma ligação afetiva muito forte a Braga. Hoje, é precisamente nesta cidade que nasce o seu maior projeto. Sente que, de alguma forma, fechou um ciclo familiar e abriu um novo legado?
Quando decidi viver em Braga ainda não sabia que era a cidade natal do meu avô. Descobrir essa ligação foi profundamente emocionante e deu um significado ainda maior à minha escolha. Não vejo este momento como o fecho de um ciclo, mas como a continuação da mesma história. O meu avô partiu para o Rio de Janeiro e, muitos anos depois, eu fiz o caminho inverso. É uma coincidência muito bonita e sinto-me honrada por dar continuidade a esse legado familiar.
A sua vida profissional passou pela advocacia, pelo design de interiores, pela escrita, pela criação de conteúdos digitais, pelo empreendedorismo e, agora, pela restauração. Existe um fio condutor que une todas estas áreas ou acredita que foram diferentes versões da mesma Lu Marinho?
Antes de tudo fui professora e, em todas as etapas da minha vida, houve um elemento comum: as pessoas. Sempre procurei aprender, ensinar, ouvir e criar relações. A advocacia ensinou-me a olhar para as famílias, o design de interiores mostrou-me a importância de criar espaços com significado e, hoje, no Oboé, procuro proporcionar experiências que façam as pessoas querer regressar. Independentemente da profissão, o meu propósito sempre foi o mesmo: cuidar das pessoas através daquilo que faço.
Costuma dizer que reinventar-se nunca foi uma escolha, mas uma necessidade. Houve algum momento específico da sua vida em que percebeu que a mudança deixaria de ser um desafio para passar a ser a sua maior força?
Em todos os momentos de mudança. Sempre que fui obrigada a sair da zona de conforto, descobri novas capacidades e novos talentos. Nunca senti que perdia o que já tinha conquistado; pelo contrário, fui somando ferramentas que me tornaram mais preparada. Hoje vejo cada mudança como uma oportunidade de crescimento.

Durante a pandemia surpreendeu milhares de pessoas através do YouTube, transformando um simples armário num palco de criatividade, organização e inspiração. Imaginou alguma vez que um momento tão difícil pudesse aproximá-la de tantas pessoas?
Nunca. Comecei por necessidade pessoal. Precisava de ocupar o tempo, manter a mente ativa e criar projetos que me dessem um propósito. Mais tarde decidi partilhar esse processo e percebi que podia ajudar outras pessoas que viviam o mesmo isolamento. A pandemia obrigou-nos a parar, a refletir e a reorganizar prioridades. Para mim, foi um período profundamente transformador.
O que é que aprendeu sobre si própria nessa fase?
Percebi que a minha voz podia fazer a diferença na vida das pessoas. Mais do que criar conteúdos, escrever um livro ou responder a quem me acompanha, descobri que comunicar é uma forma de inspirar. Aprendi também a transformar as dificuldades em oportunidades, uma atitude que continuo a aplicar diariamente, tanto na vida como no Oboé.
«A excelência começa quando conseguimos superar aquilo que prometemos»
O design de interiores sempre foi uma das suas grandes paixões e tornou-se uma referência na sua carreira internacional. Quando entra num espaço, o que vê primeiro: a estética, a funcionalidade ou a emoção que aquele ambiente pode provocar?
Sem dúvida, a emoção. Um espaço pode ser esteticamente irrepreensível, mas, se não despertar emoções, dificilmente cria uma ligação com quem o vive. O verdadeiro desafio do design é compreender aquilo que faz sentido para cada pessoa e traduzir essa identidade no espaço.
No Oboé, a decoração, a atmosfera, a iluminação, a disposição dos espaços e até a experiência do cliente revelam claramente o seu olhar de designer. Podemos dizer que o restaurante é, na verdade, um projeto de design de interiores onde, por acaso, também serve gastronomia?
O projeto de interiores não foi concebido por mim, mas encontrei aqui uma base que me permitiu imprimir a minha identidade através dos detalhes e da experiência. O Oboé é muito mais do que um restaurante: é um espaço onde convivem gastronomia, arte, cultura, música e design. O meu objetivo é criar momentos especiais, seja num casamento, num aniversário ou num evento empresarial. Trabalhar com emoções é muito mais importante do que criar apenas um espaço bonito.
Em que momento percebeu que este projeto deixava de ser apenas um restaurante para se transformar no projeto da sua vida?
Foi quando deixei de olhar para os problemas e comecei a reconhecer as conquistas. Construir este projeto foi como organizar uma casa: primeiro é preciso colocar tudo no seu lugar para, depois, pensar nos detalhes. Durante as festas de São João, ao ver a rua cheia de pessoas a viverem aquele momento, percebi que o Oboé tinha deixado de ser apenas um restaurante. Tornou-se um projeto capaz de criar memórias e de fazer parte da vida das pessoas. É isso que me motiva todos os dias e que me faz acreditar que esta é, verdadeiramente, a minha missão.
“O meu maior objetivo é criar experiências que fiquem na memória das pessoas muito depois de saírem do Oboé”
A assinatura “Oboé by Lu Marinho” está presente em praticamente todos os detalhes da experiência. Desde a carta à decoração, da música aos eventos, tudo parece contar uma história. Qual era a experiência que sentia faltar em Braga e que quis criar através do Oboé?
Gosto de dizer que sou mais curadora do que proprietária do Oboé. Ao longo da vida fui colecionando experiências em hotéis, restaurantes, espaços culturais e projetos de design por vários países. Aqui reuni tudo o que fui aprendendo e adaptei-o à realidade de Braga, sem copiar, mas reinterpretando cada inspiração. Quis criar um espaço onde a gastronomia se cruza com a arte, a música, as flores e a celebração da vida. Trouxe também um pouco da alegria brasileira, essa forma calorosa de receber e de viver cada momento. No fundo, trouxe para o Oboé aquilo que sou. Acima de tudo, quis criar um lugar com alma, onde as pessoas sintam alegria desde o momento em que entram.

Costuma afirmar que o Oboé não serve apenas refeições, mas desenha momentos…
É exatamente essa a nossa filosofia. Cada evento é único e pensado à medida de quem o vive. Seja um casamento, um aniversário intimista ou um pedido de casamento, cada detalhe é personalizado para criar uma memória especial. Não seguimos fórmulas; criamos experiências irrepetíveis.
Até que ponto acredita que a verdadeira gastronomia começa muito antes de chegar o primeiro prato à mesa?
A experiência gastronómica começa muito antes da comida. Para mim, é um espetáculo onde cada momento conta uma história: o pão artesanal, a apresentação dos vinhos, a explicação de cada prato. Queremos que quem nos visita descubra Portugal através da gastronomia e dos seus vinhos. Não pretendemos ser um restaurante de alta cozinha no sentido tradicional; queremos ser um espaço único, onde a gastronomia é apenas uma das formas de celebrar a vida.
A sua visão vai muito além da restauração tradicional. O Oboé tornou-se também um espaço para casamentos, eventos corporativos, experiências vínicas, celebrações familiares e momentos únicos. Era essa versatilidade que imaginava desde o primeiro dia ou o projeto foi crescendo à medida da sua ambição?
Sempre imaginei o Oboé desta forma. O edifício oferece características únicas e permite criar diferentes experiências no mesmo espaço. Um casamento pode começar com um welcome drink, seguir para o jantar e terminar com uma festa, sem que os convidados tenham de sair dali. O mesmo acontece com eventos corporativos ou celebrações familiares. Era precisamente essa versatilidade que quis explorar. É por isso que o Oboé é hoje um dos poucos espaços em Braga onde uma empresa pode receber os seus parceiros ou um casal pode celebrar o seu dia com a mesma exigência e a mesma alma. Cada evento é desenhado de raiz.
«O Oboé é um espaço onde a gastronomia e a cultura se encontram para criar experiências inesquecíveis»
Como designer, sabe que os detalhes transformam espaços. Como empresária, acredita que os detalhes também transformam negócios. Que pequenas coisas nunca aceita deixar ao acaso no Oboé?
Planeamento, organização, cuidado e um atendimento de excelência. Cumprir o que prometemos é apenas o ponto de partida. O meu objetivo é superar expectativas e proporcionar uma experiência verdadeiramente memorável. A excelência acontece quando oferecemos mais do que aquilo que o cliente espera.

Um dos aspetos mais elogiados do Oboé é precisamente o atendimento. Tem falado da importância de criar uma equipa com um padrão de hospitalidade pouco comum em Portugal. O que significa, para si, receber verdadeiramente bem alguém?
Tudo começa na equipa. Pessoas felizes e valorizadas conseguem acolher melhor quem nos visita. Acredito numa cultura de equipa onde cada elemento conhece o seu papel e está disponível para apoiar os restantes. Receber bem é fazer com que cada cliente se sinta verdadeiramente acolhido, independentemente do dia que teve, criando um ambiente onde possa relaxar, sentir-se bem e querer regressar.
Liderar uma empresa é desafiante. Liderar uma família durante mais de quatro décadas talvez seja ainda mais. Que ensinamentos do casamento, da maternidade e da vida familiar transporta diariamente para a gestão do Oboé e das suas equipas?
Vejo a equipa com o mesmo sentido de responsabilidade com que sempre acompanhei os meus filhos. Gosto de orientar, ensinar e exigir, mas também de confiar. Só assim é possível construir uma equipa autónoma e comprometida. Da minha família trouxe ainda o valor do convívio à mesa. Cresci a acreditar que partilhar uma refeição é criar memórias, fortalecer relações e celebrar a vida. É esse espírito que procuro transmitir diariamente no Oboé.
Ao longo da vida trabalhou em diferentes culturas e mercados. O que distingue o cliente português?
O cliente português valoriza profundamente a tradição. Naturalmente, existe alguma resistência ao que é diferente, sobretudo no Norte, mas considero isso uma característica cultural, não uma limitação. Gosto de desafiar essa resistência com respeito, mostrando novas possibilidades sem perder a identidade. É uma aprendizagem mútua: partilho novas ideias e, ao mesmo tempo, aprendo muito com as tradições portuguesas.
O Oboé está instalado num dos edifícios mais emblemáticos da cidade, o Theatro Circo. Que responsabilidade sente ao desenvolver um projeto contemporâneo dentro de um espaço carregado de história, cultura e património?
Foi precisamente essa ligação ao Theatro Circo que me fez acreditar neste projeto. Se o Oboé estivesse num centro comercial, provavelmente nunca o teria abraçado. Sempre fui apaixonada por história, arquitetura, design e arte, e sinto que este espaço me permite unir todas essas dimensões. O Oboé complementa a vida cultural do teatro, prolongando a experiência dos espetáculos através da gastronomia e de diferentes expressões artísticas. Gosto de pensar que a arte não termina quando se fecham as cortinas; continua à mesa, na música, na fotografia, na poesia e nas pessoas que aqui se encontram. Estar aqui dá, a quem nos escolhe para um evento, algo que nenhum outro espaço da cidade oferece: celebrar dentro de um monumento vivo, com toda a carga cultural que isso traz.

Braga vive um momento de enorme crescimento e afirmação nacional e internacional. Que papel acredita que o Oboé pode desempenhar na valorização da cidade enquanto destino gastronómico, cultural e de experiências?
Braga está a afirmar-se rapidamente e acredito que o centro histórico deve continuar a ser um espaço vivo, com projetos diferenciadores. O Oboé contribui para essa dinâmica ao atrair turistas, criar novas experiências para os bracarenses e valorizar a cidade através da gastronomia, da cultura e dos eventos. Queremos mostrar o melhor de Portugal a quem nos visita e proporcionar novas formas de viver Braga a quem cá reside, através de experiências que vão muito além de uma refeição.
Depois de tantas mudanças, tantas conquistas e tantas reinvenções, quando olha para o futuro, qual é o verdadeiro legado que gostaria que ficasse associado ao nome Lu Marinho?
Gostava que o meu percurso inspirasse outras pessoas a viver sem medo de recomeçar. O medo limita-nos e impede-nos de descobrir aquilo de que somos verdadeiramente capazes. Aprendi que vale a pena arriscar, mesmo quando não temos todas as respostas. Foi assim que encontrei a felicidade e gostaria que essa fosse a principal mensagem do meu legado.
«A felicidade começa quando deixamos de ter medo de recomeçar»
E, para terminar, como espera que o Oboé continue a contar essa história muito para além de si?
O futuro é uma incógnita, mas acredito que os projetos deixam marcas nas pessoas e nos lugares. Estar no Theatro Circo é um privilégio e, independentemente do que acontecer daqui a muitos anos, espero que o Oboé seja recordado pela forma como contribuiu para a vida cultural e gastronómica de Braga. Se conseguir deixar essa marca, sentirei que a minha missão foi cumprida.

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