Pedro Seromenho construiu um percurso marcado pela curiosidade e pela procura de luz, como quem sai da caverna para descobrir o mundo. Escritor, ilustrador e editor, acredita no poder dos pequenos gestos, na partilha e na observação atenta como formas de transformar a realidade. EM OFF, fala de livros e cidades que o influenciaram, da necessidade da luz, do verão e da criação em liberdade, revelando-se um criador inquieto, humanista e em permanente caminho.
Qual seria o título da sua autobiografia?
A passagem. É sobre uma personagem que habita uma caverna, como na alegoria de Platão, e um dia descobre que há um mundo repleto de luz, cor e poesia. Aprende a andar, a falar, a ler, a escrever e a criar. Fala sobre a beleza da vida e tudo o que podemos aprender. No final, deixa a mensagem de que podemos ser o que quisermos.
Se pudesse viver dentro de um filme, qual escolheria?
Favores em Cadeia. Foi o filme que me despertou para a importância de observar e ajudar. Se partilhares e te deres aos outros, contribuirás para um mundo melhor. As grandes proezas nascem de pequenas ideias. Já nos dias em que me sinto desiludido com a humanidade, viveria no Planeta dos Macacos.
Uma palavra que o descreve, atualmente?
Aquém. Fui acumulando tantas ideias, missões, projetos e desejos por concretizar que me sinto um peregrino a caminho.
Qual é a sua música preferida?
Não tenho uma. Tenho várias, sobretudo de bandas que me acompanharam na juventude tais como Pixies, Clash, Joy Division ou The Cure.
Quem gostava de ter como convidado num jantar?
Leonardo Da Vinci ou Agostinho da Silva. São pessoas que me inspiram e me transformam cada vez que as leio. Picasso ou Dali também seriam fantásticos pelos seus feitios intempestivos e criativos, mas o jantar não iria acabar da melhor forma.
Se só pudesse comer um prato para o resto da vida, qual seria?
Peixe grelhado e, mais concretamente, sardinhas. Aos poucos, provavelmente, transformar-me-ia numa criatura híbrida com guelras e sangue tipo A+ ómega-3.
Café ou chá? Com ou sem açúcar?
Café, sempre e com açúcar, embora em doses cada vez mais reduzidas. É a maior droga deste século e confesso-me dependente. É o calcanhar de Aquiles. Sou guloso e ninguém é perfeito.
Qual é a sobremesa que nunca consegue recusar?
Sim, sou pecador. Já tentei recusar o Dom Rodrigo, a Palha-de-Abrantes, a sericaia de Elvas, as papas de carolo, o leite creme queimado, o pudim abade de priscos e o pão-de-rala de Évora, entre tantos outros, mas sem sucesso.
Verão ou inverno? E porquê?
Verão, sempre verão, na minha cabeça só há essa estação. Sou e serei sempre sol, calor e verão como os girassóis de Van Gogh e os poemas da Sophia: preciso da luz e da maresia, que me guiam para ler, escrever, ilustrar e contar em liberdade.
Um livro que o marcou?
Todos os que li, inclusive os que fui escrevendo. Não há livro que não marque, uns mais e outros menos, uns pela positiva e outros pela negativa. Ler é uma experiência única, pessoal e transformadora. Da minha infância guardo os livros da Sophia Andresen, O Meu Pé de Laranja-Lima, O Principezinho e o João Sem Medo, entre outras tantas obras de autores de relevo na área da literatura infantojuvenil, que tive o prazer de conhecer pessoalmente, como o António Mota, o David Machado, o António Torrado ou a Luísa Ducla Soares.
Qual é a sua cidade de eleição?
A minha cidade de eleição é Braga. Já são quarenta e três anos minhotos com imensas vivências, aprendizagens e recordações. Foi a cidade onde cresci e, por isso, sinto-me bracarense. Um dia terei oportunidade de escrever tudo isso num romance juvenil sobre uma adolescência deliciosamente irreverente e conturbada nos anos noventa, intitulado: “Não éramos anjos”. A cidade de coração é Tavira. Uma coisa é pensar e eleger, mas o coração não pensa.
O que não pode faltar na sua mala ou mochila?
Um “moleskine” (diário gráfico) e um lápis. Caso contrário, será como viajar até Marte sem fato e botija de oxigénio. Também dará jeito levar roupa interior e produtos de higiene pessoal, mas duvido que a pergunta procurasse estas respostas. Na realidade, gostaria de viajar mais e levar menos. Dependemos das tecnologias: iphone, ipad, mac book pro, powerbanks, etc. Agora que penso nisso, devia haver psicólogos e psicanalistas especializados em redes sociais. Como já li algures: o offline é o novo luxo.
Qual seria a sua habilidade superpoderosa?
Já tenho, a de voar. Ninguém sabe, porque sou muito discreto. Só voo quando ninguém está a olhar. As pessoas pensam que estou a ler ou a escrever e jamais descobrirão a verdade. Além disso, agora, já não voo tantas vezes. Fui operado ao menisco do joelho direito e dói-me ao aterrar.
Qual é a primeira coisa que vê no telemóvel de manhã?
O aviso luminoso onde posso adiar o despertador por mais dez minutos. À posteriori, vejo a agenda e alguns mails.
Se pudesse dominar instantaneamente uma nova língua, qual seria?
Se fosse para assegurar o futuro, escolheria JavaScript, Python, SQL, Java ou TypeScript. Tornar-me-ia num ciborgue com chip tesla premium para ser infalível e impressionar os outros em formato VR e HD. Em alternativa, escolheria a língua portuguesa, para ser o primeiro e único a dominá-la em plenitude e perfeição.
Qual é o seu lema de vida?
Numa única expressão, talvez o famigerado “Carpe diem”. Tento desfrutar a vida com alegria, entusiasmo, autenticidade e intensidade. Um dos meus poemas preferidos de Edgar Allan Poe diz: “Posso não ter ido aonde outros foram, posso não ter visto o que outros viram, mas o que amei, amei sozinho.”
O que faz para se animar num dia mau?
Faço terapia. Corro ou desenho. Também aconselho ajudar alguém.
Preferia viajar para o passado ou para o futuro? Porquê?
Recuaria até à época do renascimento italiano ou, então, até ao impressionismo parisiense do Chat Noir e do Bateau Lavoir com o Modigliani, Toulouse-Lautrec, Seurat, Monet, Manet, Renoir, Cézanne, etc. O futuro interessa-me cada vez menos, apesar de ser um grande adepto de ficção científica e modernidade. Acho que, infelizmente, no futuro, as pessoas serão menos interessantes e o planeta mais triste. Faltará a interação social e as experiências sensoriais digitais reinarão.
Viagem de sonho?
Gostaria de viajar até à Cidade do Cabo e, pelo caminho, visitar o Zimbabué, onde nasci.
Clube do coração?
Contraí hipertensão braguista com uma ligeira inclinação draconária-azul. Não obstante, desde que tomo a medicação, os sintomas amenizaram.
Qual foi a coisa mais inesperada que aprendeu recentemente?
A gerir o esforço e as expetativas. Quero fazer muito, para todos e com todos: ajudar, promover, lançar novos valores e, depois, na encruzilhada, recolho mais obstáculos do que gratidão. A idade aconselha-me a pensar mais antes de agir. A ouvir mais antes de falar. Às vezes, não é fácil. Deve ser o complexo de Peter Pan.
Qual é o seu guilty pleasure (Ou seja, que coisa gosta tanto de fazer, mas gosta pouco de confessar)?
Aqui dava para escrever um catálogo confessionário, mas não irei maçar os leitores. Partilharei apenas o pleasure 68: gosto de dormir uma sesta sempre que tal me é possível.
Qual o maior medo que tem?
O da minha filha não ser feliz. Partir de repente, sem me despedir de quem amo.
Quem é o seu ídolo?
Não tenho. Admiro tudo e todos. O valor está na personalidade e no trabalho de cada um. Não me interessa que seja presidente, padeiro ou trolha. Já aprendi mais com pescadores do que com vereadores. Gosto de pessoas originais e humildes. Se estiver a ouvir ou a ler um intelectual nascido em berço e sem noção da realidade, desinteresso-me. Prefiro escutar uma pessoa que tenha poesia nas palavras, mesmo que ela não saiba ler ou articular essas palavras da forma mais adequada.
Uma memória que nunca esquecerá?
O nascimento da minha filha Mia Flor. É a minha maior obra e história.
